RAQUEL VARELA

Os deprimidos do individualismo

Uma grande amiga mudou-se para uma cidade que detesta e disse-me com humor que a sua «relação com as pessoas na cidade era exclusivamente pela via da mercadoria» – o massagista, o médico, o cabeleireiro, e por aí fora, pagava àqueles com quem se encontrava. A maioria das pessoas tem muita dificuldade em pensar como vive, em pensar os seus sentimentos e relações, não reflectem sobre como vivem; são raros os que fazem sobre si um veredicto tão duro como a minha amiga – exige muito saber e segurança, enfrentar o medo das conclusões sobre o rumo da nossa vida. Hoje estamos rodeados de pessoas deprimidas, cansativamente deprimidas; com ou sem diagnóstico médico, arrastam-se. As razões são muitas, deixo aqui uma ideia para reflectir convosco, apenas uma entre muitas – as pessoas são (estão, para sermos mais claros) preguiçosas, esmagadas pela inércia, e há uma legitimação moral social da preguiça. Um tipo é mais bem visto pelo conjunto da sociedade se for visto a fazer jogging na praia ou a passear o cão, do que se for militante de uma organização social ou política para a qual entrega parte do seu tempo (e tempo é trabalho). O individualismo não é não querermos saber dos outros. É não fazermos pelos outros. Não é logos, palavras, dizeres. É fazer.

A depressão – segundo Coimbra de Matos – só se «cura com revolta», entendida por ele não só como revolta social, mas também resistência às próprias condições de vida, ao hábito. A surpresa, a construção, os projectos – que dão trabalho – são o único contraponto ao estado depressivo. Engana-se quem pensa que são só as relações laborais e os salários que determinam o essencial dos estados depressivos; o que se passa é mais profundo e mais subjectivo – a vontade humana constrói-se de facto, para lá das condições objectivas, se forem criadas outras condições objectivas. Num quadro em que o trabalho deixa de fazer sentido criador para a maioria das pessoas, elas não conseguem inventar e criar outros projectos de vida a que dêem sentido, que lhes «encham a vida», etc. Trabalho alienado sempre existiu mas existia também fora dele um quadro de relações sociais, cooperativas, partidos políticos, associações, mutualidades, bailes, etc., que eram construídos – e não adquiridos – pelas próprias pessoas num projecto que elas consideravam seu – isso dava-lhes um sentido. As pessoas não concebiam, educadas em meios rurais ou sob influência de grandes partidos ou associações, não contribuir com tarefas concretas para as quais havia balanços e  falta de reconhecimento da comunidade caso não realizassem para a comunidade o que se propuseram fazer. Hoje vende-se a ideia de que só o que se compra tem valor; que falhar no que damos aos outros, como é gratuito, não tem impacte moral; a mercantilização está aí, em todos os poros. As pessoas jamais deixam de pagar o ginásio a horas mas acham moralmente aceitável não pagar a quota da associação política a que pertencem. Até porque criam uma hierarquia de prioridades e estão realmente convencidas de que o seu bem-estar mental vem sobretudo daquilo que adquirem com dinheiro – ginásio, teatro, cinema, jantar – e não tanto daquilo que erguem colectivamente com trabalho. O raciocínio é fatal – mais depressa as pessoas dão sentido à vida se fizerem um grupo de teatro do que se forem ver uma peça. Eis num exemplo o que insistem em dizer tantos estudiosos do bem-estar e do mal-estar mental. É bom ir ver uma peça profissional mas o que dá sentido à vida é o que nós somos capazes de construir. Enfim, não estou a dizer novidade alguma. O cruzamento das obras da psicologia e sofrimento do trabalho, do estudo das depressões, a nossa querida «Ontologia do Ser Social» e muitos outros têm dado um chão denso para sabermos hoje não o sentido da vida mas pelo menos o que não tem sentido – a compra e venda de relações sociais.

Uma das consequências históricas do neoliberalismo é a infantilização da juventude e dos adultos filhos dele, na casa dos 30, 40; a preguiça está sempre disfarçada de «não tenho tempo», o hedonismo do prazer imediato disfarçado do «não me dá pica», «estou em baixo» e outras desculpas simpáticas que encheram o mundo de gente doce e genuinamente indignada mas que não faz nada que não lhe dê prazer nos… 5 segundos seguintes. A resistência à frustração está próxima do zero, nas gerações mais novas, que nasceram sob o signo da derrota do movimento operário organizado europeu na crise de 82-84. O prazer de saber a longo prazo sucumbe ao esforço de estudar nas próximas horas; o prazer de construir algo colapsa na frustração das coisas que falham em dias. Temos alunos com coragem de ir a uma aula sem ter lido o texto que o professor deu mas ainda intervêm no debate na aula! Temos militantes políticos que nem a quota da organização pagam nem oferecem trabalho em vez da quota – que em Portugal vai de 1 euro no PS como quota mínima a 25 euros anual no BE –, mas acham-se no direito de dizer que o trabalho dos outros está todo errado e mesmo de falhar a quota de que depende o pagamento do trabalho dos outros (não existem organizações a sério sem profissionais). Não é por falta de dinheiro, é por falta de sentido colectivo elementar da vida em sociedade. O indivíduo e a sua vida diária tornam-se o epicentro de si mesmos – não conseguem assumir compromissos com os outros, negociar, fazer, construir, assumir responsabilidades colectivas.  São desinteressantes porque como vivem sobre si próprios, 90% das conversas que têm é sobre si, onde foram, onde jantaram, o que pensam, o que sentem, eles, eles, eu, eu, eu, eu. Entediantes. É uma sociedade logocêntrica, em que «dizer» substitui o «fazer» – temos portanto o mundo inteiro com o direito inalienável à opinião, incluindo opinião sobre o que não fazem, o que não lêem, o que não estudam, o que não conhecem, o que não se propõem aprender, o que não se ofereceram para ajudar.

Uma parte grande das pessoas está convencida que a cuidar de si vai sair do buraco de si mesmo. E não tem capacidade para ver que está a cavar todos os dias um poço mais fundo. Estamos a ser cobrados por 30 anos desta ideologia. Em 1960 os filhos entregavam, com menos do que têm hoje, dinheiro aos pais; hoje os pais entregam dinheiro aos filhos, para os poupar às agruras da vida difícil. Pouparam-nos assim a tudo, incluindo a compreenderem a necessidade de lutarem contra a vida difícil. A vida é má para todos, era em 1960 e é hoje, era pior então. Mas a atitude central de não fazer nada em conjunto, mas centrar a vida nas rotinas de prazer individuais imediatas, é uma das grandes explicações para o Governo ter retirado 40% da massa salarial dos que vivem do trabalho e a ter colocado nas mãos de um qualquer banqueiro. E à nossa volta, apesar disso ser tão óbvia – essa degradação da massa salarial –, só se ouvem choros e lamentos, ou raivas e palavrões – a acção concreta construtiva, colectivamente, está próximo do zero. Há uma parte da humanidade que tem a expectativa que os outros resolvam os problemas por si.

A constatação história é inevitável: hoje, a atitude perante a devastação da qualidade de trabalho e dos salários não é oferecer o seu trabalho e tempo para construir no seio das empresas ou fábricas ou das comunidades de forma política e responsável (assumindo responsabilidades) focos de resistência social e democráticos, mas pedir dinheiro à família; no caso da família, é reduzir a qualidade da alimentação que dão aos filhos, o aquecimento da casa, é ver os filhos emigrar, todas as soluções individuais ganham ao ímpeto de construção colectiva. Chegámos aqui porque não houve uma contra-ideologia, porque as organizações políticas que temos são (quase) inúteis socialmente, marinadas no pacto social; não sabem hoje como resistir, porque o Estado financiou de facto, directa e indirectamente, as organizações políticas que existem, apagando da memória histórica uma das leis magnas das organizações resistentes – o autofinanciamento. E assim temos hoje pessoas, muitas pessoas, tantas com menos de 40 anos, que têm sido elas próprias pouco úteis para construir outras organizações políticas diferentes. O mundo muda, e mudará, para melhor, porventura. Sob o peso da necessidade e das convulsões sociais as pessoas mudam, mas quem ignora o peso da ideologia neoliberal no conjunto de toda a sociedade, mesmo nos que dizem rejeitar essa mesma ideologia, não compreendeu o mundo em que vivemos.

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