RUI VIANA PEREIRA

O estoicismo grego

Estoicismo, entendido como «firmeza de ânimo face às agruras da vida», é uma palavra que nesta hora assenta que nem uma luva ao povo grego. Quem vive a situação grega actual, dia a dia, e vota NÃO à austeridade, NÃO à perda de autodeterminação, tem necessariamente uma consciência aguda quer dos sacrifícios inerentes a um confronto radicalizado com os poderes da finança e da UE, quer, em sentido oposto, do sofrimento perpétuo e sempre crescente que seria a sujeição continuada à austeridade, à pilhagem e ao esvaziamento completo da autodeterminação.

A maioria dos gregos escolheu as agruras do confronto, mantendo a autodeterminação. Apesar dos enormes sofrimentos por que vão ter de passar, salvaguardam assim a única hipótese de, a prazo, porem fim às suas agruras. É impossível fazer esta opção sem ter realizado um salto qualitativo de consciência política e colectiva – e este é o meu maior motivo de regozijo e saudação.

Que efeitos e até onde pode levar este salto qualitativo? Será esta consciência colectiva aumentada transmissível aos outros povos da Europa? – isso não o sei prever. Mas se eu fosse banqueiro, armador, armeiro ou governante, depois de ver os resultados do referendo grego talvez me sentisse compelido a tomar um ansiolítico.

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É preciso uma Europa outra

No quadro institucional dentro do qual têm sido conduzidas as negociações entre a Grécia e os poderes financeiros e europeus, toda a negociação tenderá a ser inútil (senão prejudicial) para os Gregos, embora apetitosa para os banqueiros. Os tratados e protocolos da UE, os estatutos e regras do BCE – que pode ajudar os bancos privados, emprestando-lhes dinheiro a taxas de juro nulas, mas não pode ajudar directamente os Estados –, enfim, todas as regras do jogo estão contra os povos europeus com dificuldades financeiras e atitudes submissas.

Com estas regras, com estes tratados, com estas instituições financeiras e com este Banco Central, não vamos lá. É urgente que outros povos europeus, fazendo eco com a Grécia, metam os pés à parede e digam bem alto: esta não é a Europa que nos convém.

Este comboio já percorreu um longo caminho

O referendo grego de 5/07/2015 não pode ser visto como o ponto de partida para uma nova fase no conflito de interesses que envolve a Grécia, como afirmam alguns comentadores. Na verdade estamos perante um comboio que já arrancou há bastante tempo da estação e que, com este referendo, vai já na sua segunda ou terceira etapa. O início da viagem foi assinalado pela constituição de uma comissão de auditoria independente, internacional, composta por um conjunto de figuras impolutas. Esse sim, foi um acto inovador não só na Grécia, mas também na história da Europa. Já se viveram na Europa (nalguns países) uns quantos referendos, já houve protestos e várias formas de contestação, mas uma auditoria à dívida pública, feita por uma equipa de peritos independentes, é coisa inédita na história da UE. E no entanto, segundo os tratados europeus, a auditoria é um requisito prévio a qualquer ajuda financeira ou resgate a um Estado europeu – o endividamento da Grécia a instituições financeiras e Estados da UE é um acto ilegal desde o seu início.

O resultado do referendo grego e o salto qualitativo de consciência colectiva do povo grego não surgem do nada; são consequência directa duma série de acções prévias, entre as quais avultam as conclusões preliminares da comissão de auditoria da dívida grega.

O relatório preliminar da Comissão para a Verdade sobre a Dívida Grega demonstra aos olhos de todo o mundo, de forma inquestionável, que a maior parte da dívida pública grega é ilegítima, ilegal ou odiosa; à face do direito internacional, pode (e deve) ser legitimamente anulada em parte e suspensa na restante parte, para que se possa acudir ao estado de necessidade do povo grego. Face a estas conclusões, quem deve sofrer pesadelos com a ideia de negociações e pedir dose reforçada de ansiolíticos são os especuladores financeiros e as fábricas alemãs e francesas de armamento, que têm enchido o bandulho à conta do povo grego, e não o Governo grego.

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