RUI VIANA PEREIRA

O economês e o peixe seco da Nazaré

O economês, essa língua que tudo exprime em termos de PIB, taxas de produtividade, lucro, investimentos, capitais financeiros e outros termos todos eles relacionados com a mercantilização da vida e a extracção de lucro à custa do trabalho alheio, sem jamais referir a vida real das pessoas, tornou-se a linguagem universal de contacto entre diferentes povos, diferentes estratos sociais, diferentes interesses de classe; é o latim da moderna missa celebrada no altar das televisões, dos jornais, do hemiciclo parlamentar. É indispensável que os trabalhadores abandonem esta linguagem e a denunciem como mais um instrumento de opressão.

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O caso do peixe seco na Nazaré

Foi anunciada com pompa e circunstância mais uma transformação das actividades tradicionais em motivo de atracção turística: o fabrico de peixe seco na praia da Nazaré, que entra assim para o já longo rol de expedientes de sobrevivência dos pobres que foram capturados pela grande indústria agroalimentar, do turismo, da construção, etc.

Desde há séculos e sempre que ocorria uma safra abundante, as famílias dos pescadores utilizam a técnica de secagem das espécies adequadas para o efeito, garantindo assim alguma comida para as épocas de carestia. O peixe seco é portanto uma «indústria» que nasce tanto dos expedientes populares de luta contra a miséria, como do salutar hábito dos pobres de não destruir a produção em excesso, reaproveitando-a de formas inventivas.

Para o turista, este hábito não passa de facécia castiça que polvilha a praia da Nazaré e doutras vilas piscatórias com grades onde os peixes, inteiros ou escalados, salgados ou crus, jazem ao sol como turistas na praia ou, como sucede nalgumas ruas humildes de Peniche, são pendurados no estendal da roupa, onde, quais panos de cozinha, passariam despercebidos ao olho pouco treinado, não fora o seu cheiro intenso.

A avidez do lucro olhou para estes estendais castiços e viu logo mais ali um motivo de negócio. Com a ajuda do aparelho de Estado, que não está lá para outra coisa senão amparar o negócio dos grandes empresários, foi montada uma operação folclórica de industrialização. A justificação da iniciativa é a costumeira: desenvolvimento económico, dignificação das populações, divulgação das imagens castiças do nosso Portugalinho, à mistura com «atenção a» umas quantas queixas populares avulsas.

Para «dignificar» o trabalho das peixeiras, a autarquia projecta acabar com as grades e estendais de peixe assentes directamente na praia e construir uma plataforma sobrelevada, em cima da qual as peixeiras passarão a fazer a seca do peixe e respectivo comércio. Para lhes dar ainda mais dignidade, não fosse a plataforma ficar com ares de cadafalso, foi projectada a construção duma arcada que assinalará a dita plataforma até onde a vista possa alcançar. E, cereja no topo do bolo – confeccionado aliás pelo mesmo arquitecto responsável pelos restantes trabalhos públicos da Nazaré –, um Museu do Peixe Seco, para os turistas compreenderem de que se trata, não vão eles confundir os peixes escalados com uma escultura de barro, como os galos de Barcelos.

Será o ponto de vista dos poderes públicos tão estreito, que reduza a «dignificação» das peixeiras e a «requalificação» da vila a uma questão de altitude e arqueação e a uma marginal calcetada? Creio que não, creio antes que se trata de dar mais um trabalhinho aos amigos arquitectos e empresários da construção civil.

Os promotores da iniciativa linguarejam o economês do costume, à mistura com encómios à bela figura das peixeiras: expandir a economia, trazer mais turistas que larguem cá o seu dinheiro, aumentar o emprego, o rendimento, blá-blá. Quanto mais chinfrineira fizer esta litania, mais invisível se torna uma série de factos que têm muito mais a ver com a vida do cidadão comum:

  1. Onde houvesse um canto na praia, na rua, no pátio da casa, cada família de pescadores podia exercer livre e gratuitamente a seca de peixe; não tinha de se ralar com o vizinho do lado. Terão agora de pagar licenças, alugueres de espaço, taxas especiais sobre a actividade, IVA, e assim por diante, até ao limite da imaginação. Muito provavelmente a actividade acabará por ser proibida fora do palanque oficial e quem ousar secar peixe no seu próprio quintal será perseguido pela polícia, pela ASAE e pelos fiscais da Câmara.

  2. Dada a limitação regulamentar e a circunscrição da actividade, as peixeiras que tiverem a sorte de conseguir licença e espaço sofrerão a inveja das outras; haverá dissensões e desunião de classe na vila, abrindo caminho a novos desmandos do capital.

  3. Os produtores de peixe seco serão incentivados à «produtividade», ficarão sujeitos à «lei da concorrência» e a outras patacoadas do economês. Onde antes se tratava de armazenar excedentes de produção e zelar pelo pão de amanhã na justa medida do necessário e do comércio de proximidade, tratar-se-á agora de aumentar a produção até ao infinito, muito além das necessidades reais e das fronteiras nacionais, de ir comprar peixe a outras lotas quando os excedentes da Nazaré não bastarem, de alinhar na lógica de sobre-exploração dos recursos naturais, de alimentar toda a sorte de logros e tolices para induzir o turista a comprar um miserável carapau seco elevado à categoria de «especialidade gourmet» (!) com direito a literatura museológica e DOC.

  4. À conta de toda esta fúria comercial, algumas peixeiras acabarão por contratar empregados para aumentarem a produção, tornando-se assim exploradoras do trabalho alheio onde dantes eram auto-suficientes. Tornam-se assim os miseráveis em cúmplices dos poderosos, por amor a meia-tuta.

  5. Para acelerarem, aumentarem e «baixarem os custos» da produção, provavelmente os produtores começarão a sonhar com exportações para fora do mercado local (carapau seco DOC da Nazaré…) e a comprar máquinas industriais para secagem de peixe. Com esse objectivo irão endividar-se junto da banca. Começa assim a escravidão à dívida onde antes existia subsistência autónoma e um salutar comércio de proximidade.

  6. Quando não conseguirem mais reembolsar os empréstimos, um após outro, os produtores terão de entregar o seu negócio individual à banca e aos tubarões da indústria. Teremos no fim uma empresa holandesa, ou alemã, ou chinesa, a controlar todo o palanque, onde se venderá peixe seco nas Filipinas, por ser mais barata aí a mão-de-obra, a matéria-prima e a fuga aos impostos.

  7. Perante o sucesso da actividade, a empresa monopolista exigirá às autoridades o alargamento da plataforma, estendendo-a sobre a praia, sobre as arribas e se possível sobre os terrenos dumas quantas casas populares devidamente derrubadas para o efeito, destruindo outras partes da paisagem com enormes barracões de armazenamento e seca. Haverá mais negócio para os amiguinhos construtores civis, o poder dos autarcas aumentará na medida da engorda das empresas de construção, as luvas circularão com abundância, embora dentro de um círculo restrito.

  8. Os produtores locais falidos, os moradores desalojados pelas novas instalações industriais e turísticas, as respectivas famílias, a maioria dos moradores nazarenos, acossados pelo aumento do custo de vida na Nazaré, terão de emigrar para outras paragens, tornar-se caixas de supermercado ou operadores de call center. Teremos, no fim, uma vila de franceses, alemães e burgueses ricos onde houve outrora uma aldeia de pescadores que produzia alimento para as populações ao redor. Passaremos a importar mais peixe ou perderemos o hábito de comer peixe, para passarmos a consumir empacotados produzidos no estrangeiro, agravando assim a já desequilibrada balança comercial do país.

  9. Transformada a vila em colónia francesa ou alemã, e para que a imagem turística não fique inteiramente esvaziada, serão erguidas mais estátuas às peixeiras e aos pescadores, para proveito dum Cabrita Reis ou duma Joana Vasconcelos ou duma empresa Mármores Pardal.

  10. Ficam no ar múltiplas interrogações: para onde vai o grosso do lucro do «desenvolvimento económico» assim obtido? Para proveito dos locais e da população portuguesa em geral, ou para a banca holandesa e outros paraísos fiscais? E as taxas cobradas, serão aplicadas em quê? Na satisfação das necessidades da população ou em subsídios aos grandes empresários?

É isto, rigorosamente isto, que a bela expressão «desenvolvimento económico da região» significa.

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Como é possível enganar assim toda uma população, levando-a a crer que está na senda duma vida melhor? Graças ao «economês», essa litania que, pela boca de todos os partidos do regime, consegue o grande feito de empurrar os trabalhadores para o abismo da miséria, sim, mas – e nisto está a grande habilidade – entoando cânticos de louvor aos seus algozes.

É preciso travar uma guerra sem tréguas ao economês. Para começar, de cada vez que um político, venha ele de que quadrante vier, começar a falar economês na televisão, façam um grande favor a vocês próprios: mudem de canal. Ou, melhor ainda: desliguem todos os meios de comunicação comercial e olhem para a realidade à vossa volta; e depois mobilizem-se e façam frente às autoridades públicas e à «economia» da minoria privilegiada.


Referências

Fontes das fotos: CM da Nazaré, s/a.

Jornal Região da Nazaré, «Requalificação da Marginal é retomada no final do ano», 05-01-2016.

Comércio & Notícias, «Uma nova marginal vai nascer na Nazaré», 29-09-2015.

Câmara Municipal da Nazaré, Nazaré, «Secagem de peixe», s/d, consultado em 29-09-2016.

Mónica Alexandre, jornal em linha Tinta Fresca, «Museu do Peixe Seco abre em dezembro na Nazaré», 29-09-2016.

APEDA, «Seco que nem um carapau da Nazaré», 18-08-2015; fonte original: Alexandra Prado Coelho, Público.

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