ENTREVISTA

A escola e a condição humana: O «Pulso ainda pulsa»

Entrevista a José Rodrigues, professor da Faculdade de Educação da UFF, pesquisador do CNPq, doutor em educação (Unicamp, 1997), intelectual marxista brasileiro. http://escritosdejoserodrigues.blogspot.com.br/

Solid. Os alunos devem ser avaliados? Como?
 JR. Sim, sem dúvida, estudantes devem ser avaliados. Há, pelo menos, dois grandes campos de argumentos favoráveis. Em primeiro lugar, é  muito difícil (quiçá impossível) aperfeiçoar o próprio trabalho docente, que deve visar a aprendizagem dos estudantes, obviamente, sem averiguar como estes estão evoluindo na construção do saber. Em segundo lugar, o próprio estudante tem o direito de saber, de forma mais ou menos objetiva, portanto, a partir de um outro que já domina aquele saber, o seu próprio estágio de desenvolvimento. É claro que o próprio curso do desenvolvimento do saber não é linear e nem sempre objetivável. Mas mesmo assim, vale o esforço da avaliação. 
Contudo, cabe uma pergunta: qual avaliação, qual avaliador? Nesse sentido, há um aspecto específico sobre a avaliação que precisa ser melhor analisado: o triplo caráter  nacional/larga escala-padronizado-externalizado de avaliação. Com relação a este caráter, não posso concordar. Também há aqui dois campos de argumentos, no caso, contrários à avaliação padronizada em nível nacional. Em primeiro lugar, é necessário questionar os agentes da avaliação, quais são os seus interesses, se são empresas privadas – as quais visam lucro. Além disso, caberia perguntar quem avalia o avaliador. Qual é o grau de controle social, especialmente dos docentes, de todo um país, sobre a finalidade, os objetivos, os métodos de avaliação? Como são escolhidos as entidades (empresas?) que planejarão e implementarão a avaliação? Qual é a composição de seu “quadro técnico”? Quanto custa a avaliação? Em segundo lugar, a utilização em larga escala de métodos padronizados de avaliação impactam diretamente os currículos escolares (no sentido mais amplo, mas também em sentido restrito) e, quase sempre, de forma negativa. É comum, nestas situações, as escolas e os docentes (re)planejarem o seu currículo de forma “interessada”. Ou seja, em vez de educar, treina-se o estudante para enfrentar os exames padronizados.
Enfim, avaliação sim, mas sob o controle dos professores, sem padronização imposta, e realizada em pequena escala, com o objetivo de contribuir para a construção do saber, incluindo aí o replanejamento do trabalho escolar, sem visar qualquer forma de hierarquização de estudantes ou de unidades escolares, muito menos que condicionem verbas, prêmios ou corte de verbas, punições aos resultados das avaliações.
2. Para que serve a escola hoje e para que devia servir?
Tal qual a primeira questão, esta também é muito complexa e, portanto, só podemos alinhavar um posicionamento. A escola ocidental contemporânea (em todos os seus níveis e modalidades) é herdeira de duas revoluções burguesas, ou melhor, de uma revolução com duas facetas: a revolução industrial inglesa e a revolução política francesa. A primeira transformou a potência do saber – agora, ciência moderna –  em ato material, transformando o saber científico em tecnologia. Tecnologia a serviço da produção burguesa, que visa a extração de mais-valor da classe trabalhadora. Em uma imagem marxiana, trata-se da construção e aperfeiçoamento do trabalho morto (maquinaria) sugando, como um vampiro, o trabalho vivo (os trabalhadores). O trabalho morto é construído agora cientificamente sob a forma de tecnologia. Do outro lado do Canal da Mancha, o saber foi convocado a combater o status quo da nobreza decadente. A hierarquização social entre nobres e plebeus, monarcas e súditos não mais se sustentava. Os homens seriam livres e iguais. Tudo é histórico, inclusive os regimes políticos. Em síntese, a revolução industrial entregou à escola a tarefa de socializar os princípios científicos mínimos necessários, de forma desigual e combinada, entre – potencialmente – toda a população. A escola, portanto, visaria a formação do trabalhador para este ser capaz de produzir sob o modo de produção capitalista. Já a revolução política convocou a escola a conformar cultural e ideologicamente à nova ordem social, à nova condição política, onde todos homens são (formalmente) iguais diante da lei. Em uma palavra, caberia à escola converter o súdito em cidadão. Em uma formulação sintética, portanto, a finalidade social da escola, sob o modo de produção capitalista, é (con)formar o cidadão produtivo.
O que a escola poderia ou deveria se tornar? Obviamente, a resposta depende do ponto de vista, isto é, da posição de classe de quem arrisca-se a responder. Alinho-me com a posição marxiana, que pode ser encontrada, ao longo de sua obra, mas particularmente nas Instruções aos Delegados da AIT, assim como na Crítica do Programa de Gotha. Para Marx, a educação é a articulação de educação intelectual, educação física e formação politécnica (ou tecnológica), a qual deve ser combinada com o trabalho. Nas palavras de Marx, “Esta combinação de trabalho produtivo pago com a educação intelectual, os exercícios corporais e a formação politécnica elevará a classe operária acima dos níveis das classes burguesa e aristocrática”. Penso que podemos e devemos trabalhar a noção marxiana de educação (politécnica) como o embrião de um programa pedagógico de transição.
Se sob o regime capitalista, a educação é um privilégio, distribuído de forma desigual e combinada, devemos a este privilégio contrapor a propositura de uma sociedade, uma educação nas quais “o livre desenvolvimento de cada um é condição do livre desenvolvimento de todos”. Mas, obviamente, para caminharmos decisivamente na direção apontada é preciso que a classe trabalhadora assuma a história – a sociedade, a educação – em suas próprias mãos.
3-4. És psicanalista, qual é o papel da escola na “condição humana”?
Há uma condição humana?
A psicanálise, grosso modo, visa a singularidade ou a alteridade radical.  A escola, até hoje, como disse antes, visa, grosso modo, à (con)formação. Assim, poderíamos dizer que são projetos antagônicos. Contudo, por um lado, a psicanálise também pode ser convertida no seu contrário, como mostra a experiência histórica, notadamente a chamada psicologia psicanalítica do ego, de corte estadunidense, que vicejou mundo a fora. Por outro lado, visamos construir uma escola na qual “o livre desenvolvimento de cada um é condição do livre desenvolvimento de todos”, portanto, espaço onde a singularidade poderá também desabrochar. Marx, nos disse que a “natureza humana é o conjunto das relações sociais”. Freud nos mostrou que não existe distinção entre psicologia de massa e individual. Também Freud nos mostrou que o mal-estar (na civilização) é estrutural e, portanto, insuperável. Marx, já havia nos falado algo na mesma direção, desde a Ideologia Alemã. O homem é alienado, é esta sua condição: alienado em relação à natureza, em relação à sua espécie, em relação ao trabalho e também no trabalho, finalmente, em si mesmo. 
Dito isto, os respectivos papeis da escola e da psicanálise dependem intrinsecamente da sociedade nas quais tais práxis são realizadas, primeiramente, e, em segundo lugar, quais são as suas finalidades. Caso se vise à conformação ao modo de vida burguesa, escola e psicanálise podem e vêm, de alguma forma, contribuindo para este projeto burguês de dominação. Caso seus praticantes – educadores e psicanalistas – tenham a perspectiva da transformação radical da sociedade e a superação do modo de produção burguês, tanto a educação quanto a psicanálise podem e devem desempenhar um papel civilizatório, libertador. De qualquer forma, é preciso alertar. Nenhum saber, tampouco qualquer medicamento, é capaz de eliminar o mal-estar em qualquer que seja a civilização, embora possamos e devemos seguir avançando no processo civilizatório, atualmente estagnado, me parece. O espírito humano ou, se você preferir, a pulsão jamais será domesticada. 
5. Que sinais há hoje na escola, ou seja, o que prevês para o futuro em matéria de educação?
De uma maneira geral, as forças contra-hegemônicas, anti-capitalistas, pelo menos no Brasil, continuam desempenhando um papel marginal. Não é um papel insignificante, mas é, sem dúvida, muito marginal. A chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, ao contrário do que muitos pensam ou imaginam, não ampliou o peso relativo destas forças na correlação de forças pedagógicas. Ao contrário, a cooptação em larga escala da intelectualidade em geral, e particularmente dos educadores, que ao longo de duas ou três décadas produziram sólida crítica à política educacional e às práticas pedagógicas hegemônicas, desguarneceu as fileiras, particularmente, a liderança das forças contra-hegemônicas. Com efeito, desde o governo Lula da Silva, os documentos oficiais que traçam a política educacional nacional trazem de noções de origem marxista, mas que não vão além da mera citação. Sob a linguagem crítica, esconde-se, na verdade, uma política educacional que procura implementar a finalidade burguesa da educação, que explicitei anteriormente: a (con)formação do cidadão produtivo. Não à toa, setores importantes dos intelectuais orgânicos da burguesia, como o chamado Movimento Todos Pela Educação, lograram tornar razão pedagógica de Estado – sob os governos de Lula e Dilma – a sua proposta de educação da classe trabalhadora.
De qualquer forma, forças indomáveis seguem existindo e agindo. Greves de educadores, tanto da educação básica quanto da educação superior, varreram o Brasil em 2015. E neste final de ano, algo inesperado aconteceu. Duas centenas de escolas do estado de São Paulo foram ocupadas, por cerca de 20 dias, pelos estudantes, com apoio de seus professores e familiares. Hoje, 05/12/15, o diário oficial de SP publicou o decreto do governador Geraldo Alckmin (PSDB) suspendendo a unilateral e brutal ação de reformulação da educação básica pública, aliada ao simples fechamento de unidades escolares. A reformulação, jamais discutida com a comunidade escolar, impactaria diretamente a vida de, pelo menos, 300 mil estudantes. Apesar das comemorações de vitória, a brava juventude paulistana agora exige a identificação e a punição dos policiais militares responsáveis pela violenta repressão perpetrada, nos últimos dias, contra os adolescentes, nas praças públicas da maior cidade brasileira. Dois anos atrás, aparentemente por muito menos, desencadeou-se, também desde São Paulo, os gigantescos protestos que ficaram conhecidos como “jornadas de junho”, também após uma feroz repressão policial. Talvez não esteja longe o dia, ainda em 2016, em que milhões de trabalhadores entrem em cena e, em português, digam “que se vayan todos!”, com fizeram nossos hermanos argentinos, alguns anos atrás. O pulso ainda pulsa.

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