ARTIGOS

Capitalismo Predador

por João Pires

A economia política do século XX não teve grande brilho e até mostrou um caminho de lenta decadência. Sobre estas ruínas eis que surge um novo paradigma da economia mundial.

A economia do conhecimento, a sociedade na interacção com a biosfera são novas matérias que não se encaixam nas categorias tradicionais.

A brutalidade e a complexidade da economia actual são o resultado da enorme transição histórica que estamos a viver.

Deixando de parte as particularidades de cada país, o empobrecimento da classe média nos países ricos e o extermínio dos pequenos agricultores nos países pobres e ainda as práticas destrutivas da indústria com efeitos lesivos e irreversíveis na biosfera, bem como a mesma tendência nas indústrias extractivas no subsolo, mostram bem em que direcção nos movemos.

Está em marcha o estabelecimento de uma nova dinâmica perigosa: as expulsões.

As patologias do capitalismo na sua pior versão estão à vista de todos, mas os diagnósticos divergem.

Este neoliberalismo vem ditar uma crescente desigualdade.

Que a desigualdade é inevitável numa sociedade moderna e complexa não há dúvida. Mas quais são as condições para a desigualdade? Quando é que a desigualdade se torna profundamente injusta?

Desde os anos quarenta, mas com maior visibilidade desde os anos oitenta até ao final do século passado, as desigualdades foram sendo suportáveis e até entendíveis em alguns casos apesar de ser reclamada a sua atenuação ou até extinção respectivamente de acordo com os diferentes princípios políticos.

Hoje, a desigualdade é extrema. É o trabalho precário, são as pensões de sobrevivência, a necessidade de emigrar. As enormes diferenças entre os salários mais elevados e o salário mínimo.

A maior nível de desigualdade corresponde maior nível de pobreza, aumentando a dependência bem como o crescimento da destruição do meio ambiente. Já não é mais do mesmo. É pior.

Existe um novo problema, a lógica da expulsão, que assinala a passagem para o capitalismo avançado e no seu estado mais puro e processos que produzem resultados extremos.

É a nova era do capitalismo global acompanhado da destruição ambiental e social.

São trabalhadores que consomem corpo e espírito no trabalho e são despedidos numa idade jovem.

As formações predatórias são organizações complexas dentro da empresa compostas por elementos com formações diferentes, seja na área jurídica seja na gestão dos recursos humanos com vista à destruição de valor.

Elites, especialistas, inovações técnicas no sector financeiro, apoiados pelos sucessivos governos.

A legislação laboral tem vindo a ser aligeirada principalmente na última década com vista ao desprotegimento dos trabalhadores. A contabilidade tem vindo a lançar novos termos contabilísticos com vista ao adensamento da análise da evolução dos balanços das empresas, remetendo para as notas toda a informação relevante.

O banco central permite uma certa flexibilização de análise, criando condições para o aumento da especulação e retirando a capacidade de financiamento e apoio das PME (pequenas e médias empresas) que dele necessitam desesperadamente para a compra de matérias-primas ou para pagamento dos salários.

O dinheiro é canalizado uma vez mais para os produtos complexos ao dispor de uma poderosa elite de super-ricos.

Os sucessivos governos, especialmente os poderes executivos, são parte integrante da formação predatória em análise.
Se o Estado-Nação é como um todo a vítima deste processo de globalização económica, já o poder executivo, desde os primeiros-ministros aos presidentes, têm um especial poder e novo tipo de energia graças à globalização e a Bruxelas.

São eles que definem as políticas, articulando os acordos comerciais com os particulares interesses corporativos e de investimento.

Em simultâneo o Banco de Portugal apoia todo o sistema financeiro sem que realmente se estenda às empresas, em particular às PME.

Na década de oitenta a economia começou a mudar de rumo, para encolher com o enfraquecimento dos sindicatos, o menor investimento em infra-estruturas para
benefício de todos, aumentando a concentração de poder e riqueza para alguns, em vez do real desenvolvimento da classe média.

Os recursos destinados ao investimento em bens produtivos foi desviado para as indústrias extractivas como os diamantes, minérios, petróleo e outros sectores primários, em particular na África subsaariana, e mais recentemente em Angola, que produziram riqueza para as empresas e para os governos mas devolveram pobreza generalizada à população.

Ainda hoje existem sectores a beneficiar de alguma expansão, em áreas não core, mas os lucros totais das grandes empresas voltaram, embora em sectores de actividade mais circunscritos. Os lucros das grandes empresas crescem mas o espaço económico encolhe.

As grandes empresas, incluindo a banca, pagam cada vez menos impostos. A sua carga fiscal tem vindo a ser atenuada à medida que é aumentada a dos restantes contribuintes.

Será que os desígnios desta nova ordem passam por se livrarem de todos os trabalhadores sindicalizados, extinguir a classe média, dizimar o serviço público estritamente indispensável, privatizar todo o ensino e saúde?

A Grécia foi o exemplo extremo do que poderá suceder noutros países, em particular nos países do sul da Europa. A Alemanha tem um sector industrial forte, permitindo uma recuperação mais ou menos garantida, embora tenha vindo a abrandar nos últimos meses.

O empobrecimento e tendência para o desaparecimento da classe média, os preços altamente flutuantes das casas, agora em plena queda e a redução do sistema de saúde e de ensino públicos, são o resultado de um capitalismo predador.

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